
O corpo, a materialidade do corpo. A possibilidade de tocar, abraçar, encontrar-se no corpo alheio, dominá-lo ou deixar-se dominar, possuí-lo ou ser possuído. Além disso, a persuasão íntima de que assim o é, porque nós e o outro assim o desejamos e fruidores dessa situação, deixamo-nos permanecer em estabilidade de sermos amados, ou de termos certo poder de encantar e exercermos fascínio sobre alguém.
E catalisando todo esse estado, o corpo – materialização das almas. Expressando sutilizas e peculiaridades de cada ente, conduz a história, que no afã de ser tecida, cruza seus fios com outras expressões de vida.
Abraçados, mãos passeando sobre o cálido amigo, entre vales, planícies e saliências, não lhes era acessível outra coisa a não ser o prazer sinestésico do contato com o mármore animado. Sons que evocando cores, perfumes, sabores e calor epidérmico, reclamavam que o momento fosse eterno.
Lá fora o vento farfalhava. Os ramos das árvores agitavam-se. O mundo girava e um relâmpago cruzou o céu. A chuva principiou fina sobre o telhado e não cessou até o outro dia.
Acordaram satisfeitos. Era quase meio dia. Depois do desjejum, o que poderiam fazer juntos em um dia como aquele? Poderiam assistir a um filme, mas não haviam trazido nenhum. A música de Jardel silenciara. Jogar cartas? Não. Assistir televisão em final de manhã de sábado? Era o que lhes restava fazer dentro daquela casa!
- Vamos tomar alguma coisa? Perguntou Otávio.
- Oba, vamos começar cedo, mas enquanto isso, vou começar a preparar uma carne pro nosso almoço. Disse Jardel.
- Estive aqui pensando... O que a gente podia fazer no final da semana que vem, já que é final de semana prolongado? Não rola nada no carnaval dessa região.
Houve alguns minutos de silêncio.
- Pois é... Eu estava pra te dizer uma coisa, mas não sabia como falar. Desde a minha formatura, eu combinei com alguns amigos da turma de passar o carnaval em Ouro Preto...
- E você vai?
- Já estou com tudo pago...
- Ok.
Foi impossível para Jardel não perceber o desapontamento estampado no rosto de Otávio. Um
mal-estar tomou vulto no ambiente. Lá fora, a chuva caía torrencialmente.
mal-estar tomou vulto no ambiente. Lá fora, a chuva caía torrencialmente.
